A Basílica da Virgem dos Desamparados ergue-se no coração do centro histórico de Valência, contígua à Catedral Gótica da cidade na Plaça de la Mare de Déu. Construída entre 1652 e 1667 sob a direção do arquiteto Diego Martínez Ponce de Urrana, foi edificada para albergar a venerada imagem da Virgem dos Desamparados — Nossa Senhora dos Abandonados — padroeira oficial de Valência. A fachada, enquadrada por dois campanários e revestida de pedra de tom cálido, abre-se para uma das praças mais animadas da cidade, onde fiéis e curiosos se reúnem ao longo de todo o ano sob o seu portal esculpido.
O interior é um dos mais notáveis exemplos de arquitetura eclesiástica barroca espanhola. O seu elemento estrutural de destaque é uma ousada nave elíptica — forma invulgar na arquitetura religiosa valenciana do século XVII — coroada por uma vasta cúpula com frescos. Entre 1701 e 1704, o pintor da corte Antonio Palomino executou o célebre ciclo pictórico do teto representando a glorificação da Virgem, obra considerada entre as suas maiores realizações e um marco da pintura barroca tardia espanhola. Palomino pintou também as pendentes com alegorias das virtudes cardeais, compondo um programa teológico unitário que envolve o visitante do chão até à abóbada. O dourado altar-mor, resplandecente com mármores policromados e colunas salomónicas torsas, enquadra a reverenciada imagem mariana, uma escultura em madeira policromada do século XV conhecida popularmente como «La Geperudeta» — a pequena corcunda — pela inclinação frontal característica da figura.
A devoção a esta imagem remonta a 1409, quando foi fundada uma irmandade para cuidar dos doentes mentais, órfãos abandonados e presos condenados — os «desamparados», ou abandonados, da sociedade valenciana. A imagem tornou-se inseparável da identidade valenciana e, em 1923, o Papa Pio XI coroou formalmente a escultura, elevando a basílica à categoria de Basílica Pontifícia. Todos os anos, durante as Fallas (meados de março), milhares de valencianos fazem fila durante a noite para cobrir o manto da Virgem com flores frescas no ritual conhecido como a Ofrenda de Flores, um ato de devoção coletiva raramente igualado em qualquer outro ponto de Espanha.
A entrada é gratuita e a basílica recebe visitantes ao longo de todo o dia, embora seja um espaço de culto ativo — as missas matinais reúnem grandes congregações locais. O museu da sacristia preserva mantos históricos, coroas cravejadas de joias e ex-votos que abrangem cinco séculos de devoção ininterrupta. A basílica situa-se a poucos passos da Catedral, do sítio arqueológico da Almoina e do Palau de la Generalitat, constituindo um ponto central natural de qualquer passeio pelo centro histórico de Valência. É exigida indumentária discreta, e a melhor luz para apreciar os frescos de Palomino ocorre nas manhãs de céu limpo, quando o óculo da cúpula está totalmente iluminado.